O local em que se instala o Porto Shopping, no bairro do Porto, é parte de uma área com forte inserção e presença na memória da cidade. Ao longo de praticamente todo o século XX esteve vinculada à industria da carne e, mais precisamente, ao Frigorífico Anglo. Proprietário da área desde 1921, o grupo inglês Vestey Brothers (Anglo SA a partir de 1924) construiu no local um grande complexo industrial, inaugurado em dezembro de 1943. Durante quase meio século, o frigorífico foi uma das mais fortes referências do bairro e da cidade. Quase duas décadas após o encerramento das atividades, mantém-se como expressiva marca no imaginário de Pelotas.
Nos tópicos abaixo, alguns destaques do contexto histórico que remete à implantação do Frigorífico Anglo e seu peso na memória histórica da cidade e região.
PONTO DE PARTIDA
FRANCESES, INGLESES E NORTE-AMERICANOS
- No final do século XIX, a promissora e incipiente indústria da carne frigorificada era disputada por França e Inglaterra. Aos franceses coube pouco mais que a honra da vitória no primeiro round. Tem a marca deles o primeiro feito do então nascente processo. Em 1876, o navio Le Frigorifique faz o primeiro transporte – de Ruão a Buenos Aires, viagem de três meses – de carne fresca resfriada. Até aparecer, décadas após, a forte concorrência norte americana, os ingleses colecionaram vitórias e consolidaram o domínio do setor, estendendo-o, ainda no final do século XIX, aos campos da América meridional. Em 1883 capitais ingleses implantam, na Argentina, o primeiro frigorífico da região pampiana – o River Plate Fresch Co. Ltd. Não demora muito a extensão ao Rio Grande do Sul. Em 1887 começa o processo de associação com tradicionais charqueadas, que passam a ser modernizadas e, em alguns casos, transformadas em embrião de futuros frigoríficos.
- O primeiro frigorífico do Brasil ( Barretos – SP) é de 1913 – mas a ampliação expressiva do setor ocorre durante e logo após a segunda guerra mundial ( 1914-1918), já com a presença também de grupos norte-americanos (Swift e Armour), responsáveis pela implantação das primeiras indústrias do gênero no RS, em Rio Grande e Livramento (1917) e em Rosário do Sul (1918).
- Como reação dos criadores de gado a este domínio do capital estrangeiro nasce o projeto da Cia. Frigorífica Rio Grande. De curtíssima vida, o primeiro frigorífico nacional foi instalado em Pelotas, à beira do Canal do São Gonçalo. Mais exatamente, na área logo adiante ocupada pelo Anglo e onde, anteriormente, funcionou a Charqueada Moreira.
O projeto começa a tomar forma em 1917, quando o governo do RS autoriza (Decreto 2296, de 24/09) o funcionamento da Cia. Frigorífica Rio Grande, constituída por iniciativa da União de Criadores do RS e apresentando também como incorporadores a Associação Comercial de Pelotas e o Banco Pelotense. Com terreno cedido pela Intendência Municipal, o empreendimento só conseguiu implantação efetiva em maio de 1920, com capacidade para abate de 10 mil cabeças/mês. E só funcionou durante uma safra. Já em 1921 era vendido ao grupo inglês Vestey Brothers. Começava aí a era Anglo, que se estenderia por sete décadas.
A ERA ANGLO
- A origem do grupo Vestey Brothers, em Liverpool, coincide com os primeiros passos do processo de frigorificação da carne, no final do século XIX. Não demorou muito para que o conglomerado controlado pela família Vestey estendesse seus domínios – fazendas e frigoríficos – aos “quatro cantos do mundo”: Austrália, África do Sul, Venezuela, Argentina, Uruguai e Brasil. O Império manteve-se por cerca de um século – sendo vendido em 1988, pressionado por dívidas bancárias. Antes de chegar a Pelotas, o grupo já estava presente no RS, associado, desde 1911, à Charqueada Visconde Ribeiro de Magalhães, em Bagé.
- Após adquirir as instalações da mal-sucedida Cia. Frigorífico Rio Grande às margens do São Gonçalo, o grupo pouco utilizou a unidade. Abate normal só na safra de 1921. As três próximas ficaram inviabilizadas pelo contexto de guerra civil. Em ritmo lento, o abate volta em 1925 e, no ano seguinte, o frigorífico é fechado. A retomada ocorre 17 após, dentro de um novo contexto criado pela segunda guerra mundial (1939-1945).
- Em abril de 1942, um editorial do Diário Popular comenta e saúda a volta do Anglo. Começavam as obras que consumiriam 19 meses e ergueram 44 mil m² de instalações modelo para a época. Estava montado o cenário para a inauguração, em dezembro de 1943, tratada pelos jornais da época como acontecimento de gala e marco histórico.
Fontes:
Alvarino da Fontoura Marques – A economia do Charque
Martins Livreiro – 1992 (3ª Edição)
SILVA, Neusa Regina Janke da. Entre os valores do patrão e os da nação como fica o operário (O Frigorífico Anglo em Pelotas: 1940-1970). Dissertação Mestrado de História do Brasil. Porto Alegre: PUC, ago/99.
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